Vivemos numa vila muito conhecida, rica em história e muito visitada pelos turistas, os nossos vizinhos são dos melhores produtores de vinho a nível nacional e vem gente de fora para fazer provas e visitas ás caves, temos as famosas tortas, os mal cheirosos queijos, temos os "Esses" e temos a calma do campo bem perto da cidade.
Somos felizes aqui, aprendemos a adormecer com o som dos grilos e acordar com o som dos galos e o "cucuruuu" das rolas. É impressionante como por vezes isso consegue incomodar, mas se pensarmos bem, é preferível isso do que o barulho e o fumo dos carros.
Os meus amigos reclamam porque vivo longe, eu reclamo porque demoro uma hora a chegar ao trabalho, reclamo no mês de março porque há pó amarelo dos pinheiros em todo o lado, reclamo porque os melros me comem as framboesas e reclamo das romarias que fazem á figueira que se ergue no terreno em frente.
Reclamo de barriga cheia...reclamo porque é normal do ser humano, reclamo porque sou parva e o assumo de peito feito!!
Ás vezes esqueço-me do paraíso em que vivo e da qualidade de vida que temos por viver na Aldeia, faço questão de saber a Historia e faço questão de estar presente nos acontecimentos tradicionais.
Sair de casa de manhã cedinho e ver os coelhinhos a saltaricar pelos campos, passear pelas ruas e poder colher uvas, amoras silvestres, espargos, figos, visitar a vizinha de traz e vir para casa com alguns excedentes da sua horta, a minha filha ver galinhas sem ser depenadas e embaladas no hipermercado, poder mexer nos pintainhos, comer ovos ainda quentes acabados de serem postos, não tem preço...
Do que me valia a mim viver neste paraíso e viver confinada aos limites dos meus muros?
De que me valia ter uma vizinhança tão simpática se não pudesse partilhar com eles?
De que me valia ter isto tudo se não tivesse de coração aberto para recebe-los na minha vida?
Nada...
Nem sempre estamos dispostos a viver como camponeses, a agitação do nosso dia a dia por vezes limita-nos e se não tivermos MUITA FORÇA para desligar as televisões e ignorar os telemóveis e descolar do sofá, nunca vamos saber o que é viver no paraíso...
Acho que só aprendi isso quando a Mia nasceu, ela ensinou-me que existe um mundo para alem da minha vida rotineira e faço questão que ela seja uma camponesa cheia de pinta e que saiba como nascem os legumes, qual o som dos animais, que se arranhe nas silvas, que se suje de terra e fique com os joelhos encardidos...
Somos felizes assim...com o pouco que temos e com o muito que recebemos diariamente da natureza...vivemos como uns turistas na "vila" que nos adoptou...